Estruturas Metálicas
Como dimensionar uma viga de perfil W
Dimensionar uma viga de aço em perfil W pela ABNT NBR 8800 é comprovar que a seção resiste ao momento fletor, à força cortante e ainda atende ao limite de flecha. O momento resistente sai do menor entre três modos de instabilidade — flambagem lateral com torção (FLT), flambagem local da mesa (FLM) e flambagem local da alma (FLA) —, e em perfis laminados quem quase sempre governa é a FLT, controlada pelo comprimento destravado Lb e pelo fator Cb. Este artigo percorre o roteiro etapa por etapa e fecha com um exemplo numérico completo de uma viga de piso biapoiada.

O que significa dimensionar uma viga de perfil W
Perfis W são perfis de aço laminados de seção em "I", designados pela altura nominal e pela massa linear: o W 410 x 46,1 tem cerca de 410 mm e 46,1 kg/m. Dimensioná-lo como viga é atender, ao mesmo tempo, a três condições da ABNT NBR 8800: flexão, força cortante e flecha.
A parte difícil não é a resistência da seção — é a instabilidade: viga de aço raramente rompe por esgotamento do material, perde capacidade antes por flambagem. São três modos na flexão: FLT (lateral com torção — a mesa comprimida desloca-se e a seção gira, sob comando de Lb e Cb), FLM e FLA (locais, da mesa e da alma, pelas esbeltezes bf/(2tf) e h/tw). Dimensionar é calcular os três e ficar com o menor.
Em perfis W laminados correntes FLM e FLA quase sempre são compactas, liberando o momento de plastificação: quem decide o perfil é a FLT — a distância entre travamentos laterais, não a seção.
Dados necessários antes de começar
- Propriedades do perfil: altura total d, bf, tw, tf, altura livre da alma h (trecho plano, sem os raios de concordância: h = d − 2tf − 2r), Ix, Iy, Wx, Zx, ry, constante de torção It e constante de empenamento Cw.
- Aço: fy (ASTM A36 → 25 kN/cm²; A572 Grau 50 → 34,5 kN/cm²), E = 20 000 kN/cm² e G = 7 700 kN/cm².
- Esforços de cálculo MSd e VSd (mais NSd e My,Sd, se houver).
- Comprimento destravado Lb de cada trecho entre travamentos laterais efetivos (na calculadora, o campo Lt) e o Cb do trecho.
- γa1 = 1,10 para escoamento e instabilidade.
- Para o ELS: vão, esquema estático, cargas de serviço e o limite de flecha aplicável.
As etapas do cálculo
1. Esforços solicitantes de cálculo
As combinações últimas normais da NBR 8800 dão a cada ação o seu próprio γ: peso próprio da estrutura metálica, elementos construtivos e ações de uso não compartilham coeficiente. Em viga biapoiada com carga uniforme, MSd = qd·L²/8 e VSd = qd·L/2.
2. Momento de plastificação
É o teto da seção, contra o qual os três modos são medidos: Mpl = Zx·fy, com Zx o módulo resistente plástico — usar W no lugar de Z subestima a seção em 10% a 15%.
3. Flambagem local da mesa (FLM)
λ = bf/(2tf), com λp = 0,38·√(E/fy) e λr = 0,83·√(E/(0,7fy)).
- Compacta (λ ≤ λp): MRd = Mpl/γa1.
- Semicompacta (λp < λ ≤ λr): interpolação linear entre Mpl e Mr = 0,7·fy·Wx — o fator 0,7 desconta a tensão residual.
- Esbelta (λ > λr): MRd = Mcr/γa1, com Mcr = 0,69·E·Wx/λ².
4. Flambagem local da alma (FLA)
λ = h/tw, com λp = 3,76·√(E/fy) e λr = 5,70·√(E/fy). Mesmo esquema de regimes, mudando Mr = fy·Wx — sem o desconto de tensão residual, que não se aplica à alma em flexão.
5. Flambagem lateral com torção (FLT): Lb e Cb
É a etapa que define o projeto. O momento crítico elástico do trecho destravado de comprimento Lb vale:
Mcr = (Cb·π²·E·Iy/Lb²)·√[(Cw/Iy)·(1 + 0,039·It·Lb²/Cw)]
Entram Iy, Cw e It — nenhum é Ix: perfis altos e estreitos são frágeis à FLT, e ganhar altura sem travar a mesa comprimida pode piorar o resultado. Com λLT = √(Mpl/Mcr), o momento resistente sai de três regimes:
- λLT ≤ 0,40 — trecho curto: MRd = Mpl/γa1; a FLT não governa.
- 0,40 < λLT ≤ 1,40 — inelástico: MRd = [1 − 0,49·(λLT − 0,40)]·Mpl/γa1.
- λLT > 1,40 — elástico: MRd = Mpl/(λLT²·γa1), que é exatamente Mcr/γa1.
O Anexo G da NBR 8800 escreve essa transição por interpolação linear em Lb, entre Lp = 1,76·ry·√(E/fy) e Lr: MRd = Cb·[Mpl − (Mpl − Mr)·(Lb − Lp)/(Lr − Lp)]/γa1 ≤ Mpl/γa1, com Mr = 0,7·fy·Wx. A formulação por esbeltez reduzida λLT usada aqui tem os mesmos extremos — Mpl/γa1 nos trechos curtos, Mcr/γa1 nos longos — e é mais conservadora na faixa intermediária: no exemplo adiante (Lp = 1,25 m, Lr = 3,61 m, Mr = 188,1 kN·m), 184,4 contra 228,8 kN·m.
Já o Cb corrige o fato de Mcr supor momento constante ao longo de Lb. Quando o diagrama varia, a viga é mais estável que essa hipótese:
Cb = [12,5·Mmax/(2,5·Mmax + 3·MA + 4·MB + 3·MC)]·Rm ≤ 3,0
com MA, MB e MC em módulo a 1/4, 1/2 e 3/4 do trecho e Rm = 1,00 nos perfis W. Momento uniforme dá Cb = 1,00 — a favor da segurança.
6. Momento resistente de cálculo
Mx,Rd = mín(MRd,FLM; MRd,FLA; MRd,FLT), e verifica-se Mx,Sd/Mx,Rd ≤ 1,0. No eixo de menor inércia, My,Rd segue o roteiro da FLM com Zy e Wy — não existe FLT no eixo fraco —, com Mpl = Zy·fy limitado a 1,5·Wy·fy, teto que a norma impõe contra deformação plástica excessiva e que governa nos perfis I (no W 410 x 46,1, Zy/Wy = 1,57).
7. Força cortante
Com Aw = d·tw (altura total × espessura da alma) e Vpl = 0,60·Aw·fy, compara-se λ = h/tw com λp = 1,10·√(kv·E/fy) e λr = 1,37·√(kv·E/fy):
- λ ≤ λp: VRd = Vpl/γa1 (a alma plastifica);
- λp < λ ≤ λr: VRd = (λp/λ)·Vpl/γa1;
- λ > λr: VRd = 1,24·(λp/λ)²·Vpl/γa1.
kv = 5 + 5/(a/h)² com enrijecedores transversais espaçados de a; sem enrijecedores, ou com a/h > 3, kv = 5,0 — que para fy = 34,5 kN/cm² dá λp = 59,2.
8. Flecha (estado-limite de serviço)
A verificação de deformação usa cargas de serviço, sem ponderação: em viga biapoiada com carga uniforme, δ = 5·qk·L⁴/(384·E·Ix). Os limites da NBR 8800 dependem do uso: L/350 em vigas de piso, L/250 em vigas de cobertura. Flecha, vibração e demais estados-limites de serviço ficam com o projetista no modelo estrutural; a calculadora cobre o ELU.
9. Interação de esforços
Com força normal junto da flexão, e R = NSd/NRd: para R ≥ 0,2, R + (8/9)·(Mx,Sd/Mx,Rd + My,Sd/My,Rd) ≤ 1,0; para R < 0,2, R/2 + Mx,Sd/Mx,Rd + My,Sd/My,Rd ≤ 1,0.
Exemplo numérico
Os números abaixo são demonstrativos: mostram o encadeamento, não substituem o cálculo do seu caso.
Viga de piso biapoiada, vão L = 7,00 m, perfil W 410 x 46,1 em aço ASTM A572 Grau 50 (fy = 34,5 kN/cm²): d = 40,3 cm; bf = 14,0 cm; tw = 0,70 cm; tf = 1,12 cm; h = 35,7 cm (altura livre da alma; d − 2tf = 38,1 cm); Ix = 15 690 cm⁴; Wx = 778,7 cm³; Zx = 891,1 cm³; Iy = 514 cm⁴; ry = 2,95 cm; It = 20,06 cm⁴; Cw = 196 571 cm⁶. Uma viga secundária trava a mesa no meio do vão: Lb = 3,50 m, com Cb = 1,30 pela expressão acima.
Cargas de serviço: perfil 0,46 kN/m; laje moldada no local 7,50 kN/m; revestimentos, forro e divisórias 3,75 kN/m; sobrecarga de uso 7,50 kN/m. Combinação última:
qd = 1,25·0,46 + 1,35·7,50 + 1,50·3,75 + 1,50·7,50 = 0,575 + 10,125 + 5,625 + 11,250 = 27,575 kN/m
MSd = 27,575·7,00²/8 = 168,9 kN·m; VSd = 27,575·7,00/2 = 96,5 kN.
| Etapa | Valor | Verificação |
|---|---|---|
| λFLM = 6,25 e λFLA = 51,0 | λp = 9,15 e 90,5 | mesa e alma compactas |
| Mpl = 891,1 × 34,5 | 307,4 kN·m | 30 743 kN·cm |
| MRd por FLM e por FLA | 279,5 kN·m | Mpl/1,10 |
| Mcr (Lb = 3,50 m; Cb = 1,30) | 256,8 kN·m | — |
| λLT = √(307,4/256,8) | 1,094 | 0,40 < λLT ≤ 1,40 → inelástico |
| MRd,FLT = [1 − 0,49·(1,094 − 0,40)] × 279,5 | 184,4 kN·m | governa |
| Mx,Sd/Mx,Rd | 168,9 / 184,4 = 0,92 | aprovado |
| Vpl = 0,60·(40,3 × 0,70)·34,5 | 583,9 kN | λ = 51 ≤ λp ≈ 59 → alma plastifica |
| VSd/VRd, com VRd = Vpl/1,10 | 96,5 / 530,9 = 0,18 | aprovado |
| Flecha δ (qk = 19,21 kN/m) | 1,91 cm | L/350 = 2,00 cm — aprovado |
Agora a parte que interessa: trocando apenas Cb = 1,30 por Cb = 1,00, Mcr cai para 197,5 kN·m, λLT sobe para 1,247 e Mx,Rd passa a 163,4 kN·m — a razão vira 1,03 e o perfil deixa de ser aprovado no critério adotado (pela interpolação em Lb ficaria em 0,96, no limite). E sem a viga secundária — Lb = 7,00 m e Cb = 1,14 —, λLT = 1,97 (elástico) e Mx,Rd = 72,1 kN·m: perda de 61% da capacidade, razão 2,34. Mesmo perfil, mesmo aço, mesmo carregamento — muda só onde a mesa comprimida está travada.
Foi esse encadeamento — e a facilidade de refazê-lo a cada troca de perfil ou travamento — que orientou a calculadora Vigas Perfil W do CalcproX, que aponta o modo governante e emite o memorial.
Erros comuns
- Confundir vão com comprimento destravado. Lb é a distância entre travamentos laterais efetivos da mesa comprimida. Em viga contínua, sobre o apoio quem comprime é a mesa inferior, que costuma estar destravada.
- Supor que a laje trava a viga. Só trava se a ligação impedir o deslocamento lateral da mesa comprimida; laje apenas apoiada não é travamento.
- Usar o mesmo Cb na viga inteira. Cb é propriedade do trecho destravado, e o trecho crítico nem sempre é o do momento máximo.
- Misturar unidades. Com E em kN/cm², o resto vai em cm, cm², cm³, cm⁴ e kN·cm. Lb em metros num conjunto em centímetros erra Mcr em três a quatro ordens de grandeza — aqui, cerca de 8 000 vezes.
- Esquecer as verificações locais da alma sob forças concentradas e nos apoios: escoamento, enrugamento e enrijecedores são independentes de MRd e VRd.
Responsabilidade técnica
Nenhuma ferramenta — inclusive a nossa — substitui o projetista. Os esforços vêm do modelo estrutural, e a definição do sistema, das combinações, da posição real dos travamentos, das ligações e do detalhamento é decisão de engenharia. Procure o engenheiro responsável em estrutura existente, alteração de carregamento, viga mista, perfil soldado de alma esbelta, abertura na alma ou ações dinâmicas. A responsabilidade técnica pelo projeto (ART/RRT) permanece com o engenheiro habilitado.
Perguntas frequentes
O que é o comprimento destravado Lb de uma viga metálica?
Lb é a distância entre dois travamentos laterais efetivos da mesa comprimida — pontos que impedem o deslocamento lateral da seção, como contraventamentos, vigas secundárias ligadas à mesa ou laje com conectores de cisalhamento. Não é o vão: uma viga de 7,00 m travada no meio tem dois trechos com Lb = 3,50 m. Quanto menor o Lb, maior o momento crítico Mcr e maior o momento resistente à FLT.
Como calcular o fator Cb da NBR 8800?
Cb = [12,5·Mmax/(2,5·Mmax + 3·MA + 4·MB + 3·MC)]·Rm ≤ 3,0, com MA, MB e MC os momentos em módulo a 1/4, 1/2 e 3/4 do trecho destravado e Rm = 1,00 em seções duplamente simétricas, como os perfis W. Momento uniforme dá Cb = 1,00. Numa viga biapoiada com carga uniforme travada no meio do vão, o trecho entre o apoio e o meio resulta em Cb = 1,30.
Qual a fórmula do momento resistente de uma viga de perfil W?
Mx,Rd é o menor entre os três modos: FLM, FLA e FLT. Se a seção é compacta nos dois modos locais, MRd por FLM e FLA vale Mpl/γa1, com Mpl = Zx·fy e γa1 = 1,10. Na FLT, o Anexo G da NBR 8800 interpola linearmente em Lb entre Lp = 1,76·ry·√(E/fy) e Lr: MRd = Cb·[Mpl − (Mpl − Mr)·(Lb − Lp)/(Lr − Lp)]/γa1 ≤ Mpl/γa1, com Mr = 0,7·fy·Wx. Acima de Lr o regime é elástico e MRd = Mcr/γa1.
O que são FLT, FLM e FLA no dimensionamento de vigas de aço?
São os três modos de flambagem de uma viga fletida. FLT (flambagem lateral com torção) é o deslocamento lateral da mesa comprimida acompanhado de giro da seção, e depende do comprimento destravado Lb e do fator Cb. FLM e FLA são flambagens locais da mesa e da alma, governadas pelas esbeltezes bf/(2tf) e h/tw. Em perfil W laminado corrente, FLM e FLA são compactas e quem governa é a FLT.
Qual o limite de flecha de uma viga de aço pela NBR 8800?
Depende do uso: L/350 em vigas de piso e L/250 em vigas de cobertura, entre outros casos previstos na norma. A flecha é calculada com cargas de serviço, sem ponderação — em viga biapoiada com carga uniforme, δ = 5·qk·L⁴/(384·E·Ix). Numa viga de piso de 7,00 m, o limite é 2,00 cm; em vãos maiores esse critério costuma definir a altura do perfil, mesmo com o ELU aprovado.
Como calcular o cortante resistente de um perfil W?
Vpl = 0,60·Aw·fy, com Aw = d·tw (altura total vezes espessura da alma). Se λ = h/tw ≤ λp = 1,10·√(kv·E/fy), a alma plastifica e VRd = Vpl/γa1; acima disso entram as reduções (λp/λ) e 1,24·(λp/λ)². Sem enrijecedores transversais, ou com a/h > 3, kv = 5,0 — que para fy = 34,5 kN/cm² dá λp = 59,2. Exemplo: W 410 x 46,1 nesse aço tem Aw = 28,21 cm², Vpl = 583,9 kN e VRd = 530,9 kN.
Qual valor de γa1 usar no dimensionamento de estruturas de aço?
γa1 = 1,10 nas combinações normais, para os estados-limites de escoamento, flambagem e instabilidade — é o coeficiente que divide MRd, VRd e NRd. Para ruptura, como a da seção líquida efetiva de barras tracionadas na região das ligações, a NBR 8800 usa γa2 = 1,35. Trocar um pelo outro altera a resistência de cálculo em cerca de 23%.
Quando a FLT deixa de governar o dimensionamento?
Quando o trecho destravado é curto o bastante: pelo Anexo G da NBR 8800, quando Lb ≤ Lp = 1,76·ry·√(E/fy) — num W 410 x 46,1 em ASTM A572 Grau 50, Lp = 1,25 m. Nesse caso MRd = Mpl/γa1 e o momento resistente passa a ser limitado apenas por FLM e FLA. Na prática isso acontece com laje ligada por conectores à mesa comprimida ou com travamentos frequentes: cada travamento reduz Lb e aumenta Mcr.
Faça esse cálculo no CalcproX
Dimensionamento de Perfil W — Vigas Metálicas pela NBR 8800
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Sobre o autor
Eng. Mauro Moura
Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Engenheiro civil formado pela PUC-SP
- Pós-graduado em Edifícios Altos pelo Mackenzie
- Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Mais de 10 anos projetando estruturas e fundações
Conteúdo informativo. A interpretação dos resultados e a responsabilidade técnica do projeto são sempre do engenheiro responsável.
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