Concreto Armado
Como verificar punção em lajes: passo a passo pela NBR 6118
Verificar punção é comparar a tensão de cisalhamento solicitante com a resistente em três superfícies críticas ao redor do pilar: o contorno C na face (esmagamento da biela), o contorno C' a 2d da face (dispensa ou exige armadura) e o contorno C'' externo aos conectores. Este guia mostra a sequência completa da NBR 6118 (item 19.5), com as fórmulas de τRd1, τRd2 e τRd3, o efeito dos momentos e um exemplo numérico resolvido do início ao fim.

O que a verificação de punção realmente compara
Punção é a ruptura por cisalhamento na ligação direta entre a laje e o pilar. A superfície de ruína tem forma de tronco de cone, sai da face do pilar e atravessa a espessura da laje com inclinação da ordem de 26° a 30°. É uma ruína frágil: acontece sem fissuração prévia visível e sem redistribuição, e por isso a NBR 6118 dedica o item 19.5 inteiro a ela.
O modelo normativo é simples de entender: em vez de calcular a superfície inclinada real, a norma define contornos de controle em planta, distribui a força que o pilar transmite ao longo desses contornos e compara a tensão de cisalhamento resultante com um valor resistente. São três verificações independentes:
- Contorno C — perímetro do próprio pilar. Verifica o esmagamento da biela comprimida de concreto: τSd ≤ τRd2. Se falhar, não existe armadura que resolva.
- Contorno C' — afastado 2d da face do pilar. Decide se a laje dispensa armadura de punção (τSd ≤ τRd1) ou se precisa dela (aí passa a valer τRd3).
- Contorno C'' — afastado 2d além da última camada de conectores. Garante que a ruptura não vá simplesmente acontecer fora da região armada.
Dados que você precisa antes de começar
- Posição do pilar na laje: interno, de borda ou de canto — muda os perímetros e o tratamento dos momentos.
- Seção do pilar: retangular (c₁ × c₂) ou circular (D).
- Espessura total h e altura útil d da laje (d = h − cobrimento − φ/2, ou a média das duas direções).
- Esforços característicos da análise estrutural: força vertical Fk e momentos Mk,x e Mk,y transferidos ao pilar, com o coeficiente γf.
- Concreto: fck e γc.
- Armadura de flexão aderente nas duas direções — é ela que define a taxa ρ usada na resistência.
- Se houver armadura de punção: tipo de conector (estribo ou stud) e fywd.
As etapas do cálculo
- Esforços de cálculo. FSd = γf · Fk e MSd = γf · Mk. Use a combinação última normal (γf = 1,4 no caso usual).
- Perímetros de controle. Para pilar interno retangular: u₀ = 2(c₁ + c₂) e u = 2(c₁ + c₂) + 2π(2d). Para pilar de borda e de canto, os trechos perpendiculares à face livre são limitados a min(1,5d; c/2) e o arco vira meia ou um quarto de circunferência.
- Contorno C — biela. τSd = FSd/(u₀ · d) contra τRd2 = 0,27 · αv · fcd, com αv = 1 − fck/250. Reprovou aqui? Aumente a espessura da laje, o fck ou a seção do pilar — ou use capitel.
- Taxa de armadura de flexão. ρ = √(ρx · ρy), com as taxas medidas numa faixa que se estende 3d para cada lado do pilar. Só armadura aderente conta.
- Contorno C' sem armadura. τSd = FSd/(u · d) + K·MSd/(Wp · d) contra τRd1 = 0,13 · (1 + √(20/d)) · (100 · ρ · fck)1/3, com d em cm e fck em MPa. Passou? A laje dispensa armadura de punção — mas ainda falta o colapso progressivo.
- Dimensionar a armadura (τRd3). τRd3 = 0,10 · (1 + √(20/d)) · (100 · ρ · fck)1/3 + 1,5 · (d/sr) · (Asw · fywd,ef · sen α)/(u · d). Repare que a parcela de concreto cai de 0,13 para 0,10 quando existe armadura. Isolando Asw você obtém a área necessária por camada.
- Contorno C''. Com p = 0,5d + (n − 1)·sr (distância da face à última camada), recalcule u'' e Wp'' e compare de novo com τRd1. Se não passar, acrescente camadas até passar — é esse critério que define o número mínimo de camadas.
- Colapso progressivo (§19.5.4). Armadura inferior contínua passando pelo pilar, com As · fyd ≥ 1,5 · FSd, adotando γf = 1,2. Ela é obrigatória mesmo quando a laje dispensa armadura de punção.
O coeficiente K e o módulo Wp
Quando o pilar recebe momento, o cisalhamento não se distribui uniformemente no contorno. A norma trata isso com a parcela K·MSd/(Wp·d), em que Wp é o módulo de resistência plástica do contorno crítico e K depende da relação entre as dimensões do pilar:
| c₁/c₂ | 0,5 | 1,0 | 2,0 | 3,0 |
|---|---|---|---|---|
| K | 0,45 | 0,60 | 0,70 | 0,80 |
Valores intermediários são interpolados. Em pilares de borda e de canto há um passo extra: parte do contorno não existe, então a norma trabalha com perímetro reduzido (u* e u₀*) e com o momento resultante da excentricidade e*, subtraindo M* = FSd·e* do momento aplicado. Na prática, um pilar de canto com a mesma carga de um interno produz tensões de punção bem maiores.
Exemplo demonstrativo
Os números abaixo são demonstrativos, criados para ilustrar a sequência de cálculo — não representam um projeto real e não devem ser copiados para uma obra.
Dados: pilar interno 40 × 40 cm; laje lisa h = 22 cm, d = 18 cm; fck = 30 MPa, γc = 1,4; Fk = 45 tf e Mk,x = 3,0 tf·m, com γf = 1,4; armadura de flexão φ12,5 c/12,5 cm nas duas direções (9,82 cm²/m); estribos CA-50.
1) Esforços: FSd = 1,4 × 45 = 63 tf; MSd,x = 1,4 × 3,0 = 4,2 tf·m.
2) Contorno C: u₀ = 2(40 + 40) = 160 cm → τSd = 63 000/(160 × 18) = 21,9 kgf/cm² = 2,15 MPa. Resistente: αv = 1 − 30/250 = 0,88 e fcd = 21,43 MPa → τRd2 = 0,27 × 0,88 × 21,43 = 5,09 MPa. Folga confortável.
3) Taxa ρ: com 9,82 cm²/m em cada direção e a seção da laje (h = 22 cm), ρx = ρy = 9,82/(100 × 22) = 0,45%. Referir a taxa a h em vez de d é o lado conservador da definição. Daí k = 1 + √(20/18) = 2,054 e (100 × 0,00446 × 30)1/3 = 2,374.
4) Contorno C': u = 160 + 2π(2 × 18) = 386,2 cm; Wp,x = 14 988 cm²; K = 0,60 (pilar quadrado). Então τSd = 0,889 (força) + 0,092 (momento) = 0,98 MPa, contra τRd1 = 0,13 × 2,054 × 2,374 = 0,63 MPa. Não passa → a laje exige armadura de punção.
5) Armadura: parcela de concreto de τRd3 = 0,10 × 2,054 × 2,374 = 0,49 MPa. Adotando sr = 0,75d = 13,5 cm (o fator 1,5·d/sr vira exatamente 2,0) e fywd,ef = 314,8 MPa — resultado da interpolação do §19.4.2 entre 250 MPa (h ≤ 15 cm) e 435 MPa (h ≥ 35 cm) para h = 22 cm — a área necessária é Asw = 5,44 cm² por camada. Adotando 8 ramos φ10 mm = 6,28 cm², τRd3 = 0,49 + 0,57 = 1,06 MPa ≥ 0,98 MPa. Passa.
6) Contorno C'': com 3 camadas, p = 0,5 × 18 + 2 × 13,5 = 36 cm e u'' = 160 + 2π(36 + 36) = 612,4 cm → τSd = 0,60 MPa ≤ 0,63 MPa. Três camadas bastam.
7) Colapso progressivo: com γf = 1,2, FSd = 54 tf e fyd = 434,8 MPa → As = 1,5 × 54 000/4 434 = 18,3 cm² de armadura inferior atravessando o pilar (por exemplo 6 φ20).
| Contorno | Perímetro (cm) | τSd (MPa) | τRd (MPa) | Situação |
|---|---|---|---|---|
| C (face) | 160,0 | 2,15 | 5,09 (τRd2) | OK |
| C' sem armadura | 386,2 | 0,98 | 0,63 (τRd1) | Exige armadura |
| C' com armadura | 386,2 | 0,98 | 1,06 (τRd3) | OK |
| C'' (3 camadas) | 612,4 | 0,60 | 0,63 (τRd1) | OK |
Um detalhe que só aparece no detalhamento: o espaçamento circunferencial entre conectores no contorno mais externo da armadura deve ficar em torno de 2d. Neste exemplo, o vão de canto do arranjo em cruz vale aproximadamente (π/2) × 36 = 56,5 cm contra 2d = 36 cm — sinal de que faltam conectores nos cantos, senão o cone de ruptura passa entre eles. Refazer essa sequência para todos os pilares de um pavimento é exatamente o tipo de trabalho repetitivo que a calculadora de punção do CalcproX resolve, já emitindo o memorial com a substituição numérica contorno a contorno.
Erros comuns
- Esquecer o momento. Verificar só FSd/(u·d) subestima a tensão — no exemplo acima o momento respondeu por quase 10% de τSd, e em pilar de borda a parcela costuma ser bem maior.
- Tratar pilar de borda como interno. Sem o perímetro reduzido e sem o momento das excentricidades, o resultado fica sistematicamente contra a segurança.
- Usar fywd = 435 MPa direto. Em lajes finas a norma limita a tensão efetiva do conector; ignorar a interpolação do §19.4.2 superestima a contribuição do aço.
- Parar no contorno C'. Dimensionar Asw e não verificar C'' apenas empurra a ruptura para fora da região armada.
- Adotar sr maior que 0,75d ou menos de três camadas: o modelo de τRd3 pressupõe que o cone cruze os conectores.
- Deixar o colapso progressivo de fora quando a laje dispensou armadura de punção — ele continua obrigatório.
- Achar que capitel dispensa a verificação. Ele aumenta d na região do pilar, mas obriga a verificar contornos dentro e fora do engrossamento.
Quando procurar o engenheiro responsável
Nenhuma ferramenta de cálculo assume responsabilidade técnica. Os esforços Fk, Mk,x e Mk,y vêm da análise estrutural e carregam todas as hipóteses de modelagem — rigidez das ligações, redistribuição, efeitos de segunda ordem. Se o contorno C reprovar, se a armadura necessária resultar em um arranjo inexecutável, se houver aberturas próximas ao pilar, protensão, capitel ou geometria irregular, a decisão é de projeto e precisa do julgamento de um engenheiro civil habilitado. Use o cálculo automatizado para ganhar velocidade e rastreabilidade no memorial; a verificação final, o detalhamento e a assinatura permanecem com o responsável técnico da obra.
Perguntas frequentes
A que distância da face do pilar fica o contorno C' na punção?
A 2d da face do pilar, sendo d a altura útil da laje. O contorno C' é formado pelas faces do pilar afastadas 2d, com arcos de circunferência de raio 2d nos cantos. Para pilar interno retangular, u = 2(c₁ + c₂) + 2π(2d). O contorno C fica na própria face (u₀) e o contorno C'' a 2d além da última camada de conectores.
Qual a diferença entre τRd1, τRd2 e τRd3?
τRd2 = 0,27·αv·fcd é a resistência ao esmagamento da biela comprimida, verificada no contorno C (face do pilar). τRd1 = 0,13·(1+√(20/d))·(100ρfck)^(1/3) é a resistência da laje sem armadura de punção, usada nos contornos C' e C''. τRd3 acrescenta a contribuição dos conectores e reduz a parcela de concreto de 0,13 para 0,10; vale apenas no contorno C' quando há armadura de punção.
Como calcular o perímetro crítico de punção em pilar de borda?
Os trechos perpendiculares à face livre são limitados a min(1,5d; c/2) em vez da dimensão cheia, e o arco vira meia circunferência. Em pilar de canto limitam-se as duas direções e o arco vira um quarto de circunferência. Além do perímetro menor, a norma exige considerar o momento resultante da excentricidade e*, subtraindo M* = FSd·e* do momento aplicado na direção perpendicular à borda.
Qual o espaçamento máximo entre camadas de armadura de punção?
O espaçamento radial entre camadas é limitado a sr ≤ 0,75d. A primeira camada fica a cerca de 0,5d da face do pilar. Adotar exatamente sr = 0,75d é conveniente porque o fator 1,5·(d/sr) da fórmula de τRd3 vale exatamente 2,0. O espaçamento circunferencial entre conectores no contorno mais externo deve ficar em torno de 2d, o que muitas vezes obriga a prever elementos adicionais nos cantos.
Quantas camadas de armadura de punção são necessárias?
O número de camadas é definido pelo contorno C'': acrescentam-se camadas até que τSd em C'' fique abaixo de τRd1, respeitando o mínimo de três camadas exigido pelo detalhamento. Cada camada adicional afasta o contorno C'' em sr, aumentando u'' e reduzindo a tensão solicitante. No exemplo do artigo, três camadas com sr = 13,5 cm foram suficientes.
O que fazer quando a tensão no contorno C supera τRd2?
Não adianta acrescentar armadura de punção: a biela comprimida de concreto é que está esmagando. As saídas são aumentar a espessura da laje, aumentar o fck, aumentar a seção do pilar ou introduzir capitel na região do apoio. Em último caso, revisar a concepção estrutural e prever vigas ou faixas maciças na ligação com o pilar.
Preciso verificar punção em laje apoiada em vigas?
Na ligação com as vigas, não — a carga é transferida por cisalhamento distribuído ao longo da viga, e a verificação é de força cortante. A punção precisa ser verificada onde há carga concentrada em área reduzida: pilares apoiando diretamente a laje, cargas concentradas isoladas, e também em sapatas e blocos, onde o pilar aplica a reação em uma área pequena do elemento de fundação.
A armadura contra colapso progressivo é obrigatória mesmo sem armadura de punção?
Sim. Ela é uma exigência independente (NBR 6118 §19.5.4): a armadura inferior contínua que atravessa o pilar deve atender As·fyd ≥ 1,5·FSd, calculada com γf = 1,2. A função dela é pendurar a laje caso ocorra uma ruptura local por punção, impedindo que o colapso se propague aos vãos vizinhos, e por isso ela vale mesmo quando a laje dispensou armadura de punção.
Faça esse cálculo no CalcproX
Verificação de Punção em Lajes conforme a NBR 6118
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Sobre o autor
Eng. Mauro Moura
Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Engenheiro civil formado pela PUC-SP
- Pós-graduado em Edifícios Altos pelo Mackenzie
- Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Mais de 10 anos projetando estruturas e fundações
Conteúdo informativo. A interpretação dos resultados e a responsabilidade técnica do projeto são sempre do engenheiro responsável.
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