Concreto Armado
Como dimensionar uma viga de concreto armado
Dimensionar uma viga de concreto armado é encontrar, para uma seção e materiais conhecidos, as armaduras que equilibram o momento fletor, a força cortante e o momento torçor no estado-limite último, e depois confirmar que a peça atende aos estados-limites de serviço. O roteiro da ABNT NBR 6118 é sempre o mesmo: propriedades dos materiais, altura útil, equilíbrio da seção à flexão com verificação de ductilidade, estribos ao cisalhamento e, por fim, flecha e abertura de fissuras. Este artigo percorre esse roteiro etapa por etapa e fecha com um exemplo numérico completo de uma viga biapoiada.

O que significa dimensionar uma viga de concreto armado
Dimensionar uma viga é responder a três perguntas com números: quanta armadura longitudinal resiste ao momento fletor, quanto estribo resiste à força cortante (e à torção, quando existe) e se a seção adotada é aceitável em serviço — ou seja, se não deforma nem fissura além do tolerável.
As duas primeiras perguntas pertencem ao estado-limite último (ELU): os esforços característicos são majorados por γf, as resistências dos materiais são minoradas por γc e γs, e o equilíbrio da seção é escrito no diagrama retangular simplificado de tensões da ABNT NBR 6118. A terceira pertence aos estados-limites de serviço (ELS), verificados com os esforços sem majoração, nas combinações quase-permanente e frequente.
Um erro clássico é parar no ELU. Em vãos a partir de uns 5 m, a flecha costuma governar a altura da viga muito antes de a armadura de flexão dar problema — a seção "passa" no ELU e reprova no ELS.
Dados necessários antes de começar
- Geometria: largura da alma bw, altura h e, em seção T, a largura e a espessura da mesa colaborante (bf, hf).
- Cobrimento nominal compatível com a classe de agressividade ambiental (NBR 6118 §7.4) e uma estimativa da distância do centro da armadura à face (d′).
- Materiais: fck do concreto, fyk da armadura longitudinal e fywk dos estribos.
- Esforços característicos Mk, Vk e Tk, vindos da análise estrutural (viga isolada ou pórtico).
- Coeficientes: γf (usual 1,4), γc = 1,4, γs = 1,15 e o limite de ductilidade x/d.
- Para o ELS: vão efetivo, sistema estrutural, cargas gk e qk separadas, fatores ψ1 e ψ2 da ocupação e a classe de agressividade.
As etapas do cálculo
1. Propriedades de cálculo dos materiais
fcd = fck/γc e fyd = fyk/γs. Para o cisalhamento e o ELS ainda são necessários fctm = 0,3·fck2/3 (concretos até C50), fctk,inf = 0,7·fctm, fctd = fctk,inf/γc, o fator αv2 = 1 − fck/250 e o módulo secante Ecs.
2. Altura útil
d = h − d′, com d′ = cobrimento + diâmetro do estribo + metade do diâmetro da barra longitudinal. Estime d′, calcule, e ao final confira se a bitola escolhida confirma a estimativa. Se a armadura precisar de duas camadas, d cai e o cálculo precisa ser refeito.
3. Momento de cálculo e posição da linha neutra
Md = γf·Mk. O equilíbrio da seção retangular no ELU dá o parâmetro adimensional
Kmd = Md / (bw · d² · fcd)
de onde se obtém a posição relativa da linha neutra x/d. Com a resultante de compressão Rcc = 0,68·bw·x·fcd (αc = 0,85 e altura do bloco y = 0,8x) e o braço de alavanca z = d − 0,4x, o equilíbrio de momentos fecha o problema.
4. Ductilidade e domínio de deformação
A NBR 6118 limita a posição da linha neutra para garantir ruptura dúctil, com aviso prévio: x/d ≤ 0,45 para concretos até C50 e x/d ≤ 0,35 acima disso. Se o x/d calculado ultrapassa o limite, há três saídas: aumentar a seção, aumentar o fck ou adotar armadura dupla — armadura de compressão para absorver o momento excedente mantendo x/d no limite. Classificar o domínio (2, 3 ou 4) é o controle de qualidade dessa etapa: domínio 4 significa seção superarmada, com ruptura frágil do concreto antes do escoamento do aço.
5. Armadura de tração e armadura mínima
As = Md / (fyd · z). O valor calculado é confrontado com a armadura mínima, que na NBR 6118 vem de dois critérios: a taxa ρmín tabelada em função do fck (0,150% para concretos até C30) aplicada sobre bw·h, e a armadura correspondente ao momento mínimo Md,mín = 0,8·W0·fctk,sup. Adota-se o maior. Vigas com altura a partir de 60 cm ainda recebem armadura de pele nas faces laterais.
6. Cisalhamento
Duas verificações independentes, com Vsd = γf·Vk:
- Bielas comprimidas: Vsd ≤ VRd2. No Modelo I (bielas a 45°), VRd2 = 0,27·αv2·fcd·bw·d. Se falhar, não existe armadura que resolva — só aumentar a seção ou o fck.
- Armadura transversal: Vc = 0,6·fctd·bw·d é a parcela do concreto; Vsw = Vsd − Vc é a parcela dos estribos, e Asw/s = Vsw/(0,9·d·fywd).
O resultado é comparado com a armadura transversal mínima, ρsw,mín = 0,2·fctm/fywk, e o espaçamento respeita 0,6d ≤ 30 cm (quando Vsd ≤ 0,67·VRd2) ou 0,3d ≤ 20 cm acima disso. O Modelo II permite bielas entre 30° e 45°, reduzindo o estribo à custa de mais armadura longitudinal de tração no banzo.
7. Torção e interação
Havendo momento torçor, a NBR 6118 §17.5 substitui a seção cheia por uma seção vazada equivalente de espessura he, com área Ae e perímetro ue do núcleo. Verifica-se TRd2, calculam-se os estribos de torção (que somam aos de cisalhamento, dois ramos) e a armadura longitudinal distribuída pelo perímetro. Quando cortante e torçor coexistem, vale a interação Vsd/VRd2 + Tsd/TRd2 ≤ 1,0.
8. Estados-limites de serviço
Compare o momento na combinação quase-permanente com o momento de fissuração Mr = α·fct·Ic/yt. Se a seção fissura, a flecha imediata usa a rigidez equivalente (ponderação entre a inércia bruta e a do estádio II), e a flecha diferida entra por um coeficiente de fluência que depende das idades de carregamento. O total vai contra o limite de aceitabilidade visual ℓ/250. Em paralelo, a abertura característica de fissuras wk é calculada na combinação frequente e comparada ao limite da classe de agressividade (0,4 mm na CAA I; 0,3 mm nas CAA II e III; 0,2 mm na CAA IV).
9. Detalhamento em bitolas comerciais
Converta cada área em barras reais e verifique quantas cabem por camada com os espaçamentos mínimos da NBR 6118 §18.3. É aqui que muita seção "aprovada" no papel se revela impossível de executar.
Exemplo demonstrativo
Os números abaixo são demonstrativos, feitos para ilustrar o encadeamento das etapas — não substituem o cálculo do seu caso.
Viga biapoiada, vão efetivo 6,00 m, seção retangular 20 × 50 cm, C25, CA-50 nas barras e nos estribos, cobrimento 2,5 cm (CAA II), gk = 13,0 kN/m e qk = 8,0 kN/m, ocupação residencial (ψ1 = 0,4; ψ2 = 0,3), γf = 1,4.
Esforços característicos: Mk = 21,0 × 6,00²/8 = 94,5 kN·m; Vk = 21,0 × 6,00/2 = 63,0 kN.
| Etapa | Valor | Verificação |
|---|---|---|
| Altura útil d = 50 − 4,0 | 46,0 cm | d′ estimado com φ16 e estribo φ5,0 |
| fcd / fyd | 17,86 / 434,8 MPa | γc = 1,4; γs = 1,15 |
| Md = 1,4 × 94,5 | 132,3 kN·m | — |
| Kmd → x/d | 0,175 → 0,291 | ≤ 0,45 — dispensa armadura dupla |
| Domínio (εc = 3,5‰; εs = 8,5‰) | Domínio 3 | seção subarmada, ruptura dúctil |
| Braço de alavanca z | 40,6 cm | z = d − 0,4x, x = 13,4 cm |
| As calculada / mínima | 7,49 / 1,50 cm² | governa a calculada |
| Bitola adotada | 4 φ 16,0 mm = 8,04 cm² | cabe em uma camada em bw = 20 cm |
| Vsd / VRd2 | 88,2 / 399 kN | razão 0,22 — bielas folgadas |
| Vc / Vsw | 70,8 / 17,4 kN | Modelo I (θ = 45°) |
| Asw calculada / mínima | 0,97 / 2,05 cm²/m | governa a mínima |
| Estribo adotado | φ 5,0 mm c/19 cm, 2 ramos | s ≤ 0,6d = 27 cm |
| Mr / Mqp | 32,1 / 69,3 kN·m | seção fissurada (estádio II) |
| Flecha imediata + diferida | 1,06 + 1,40 = 2,47 cm | ℓ/250 = 2,40 cm — não passa |
| Abertura de fissuras wk | 0,13 mm | ≤ 0,30 mm (CAA II) |
Repare no desfecho: o ELU passa com folga confortável, mas a flecha total estoura o limite em cerca de 3%. As saídas legítimas são adotar contraflecha (aqui, 1,0 cm, dentro do teto de ℓ/350 = 1,71 cm), aumentar a altura para 55 cm ou revisar o sistema estrutural. Foi exatamente esse encadeamento — e a facilidade de refazer todas as etapas quando um dado muda — que orientou a calculadora de vigas do CalcproX, que executa ELU e ELS na mesma passada e emite o memorial com a substituição numérica.
Erros comuns
- Majorar duas vezes. Se a análise estrutural já entregou esforços de cálculo, γf não entra de novo — o resultado fica 40% conservador e caro.
- Fixar d = h − 3 cm por hábito. Com CAA III, estribo φ6,3 e barras φ20 em duas camadas, d′ passa fácil de 7 cm.
- Esquecer a armadura mínima de estribos. Em vigas de porte usual ela governa quase sempre — dimensionar só por Vsw leva a estribo insuficiente.
- Usar mesa colaborante no momento negativo. Sobre o apoio a mesa está tracionada e não colabora: a seção volta a ser retangular com largura bw.
- Ignorar o ELS. Flecha e fissuração não são refinamento — são exigência normativa e, em vãos maiores, o critério que define a altura.
- Aceitar armadura dupla sem pensar. Ela resolve a ductilidade, mas sinaliza seção subdimensionada; muitas vezes 5 cm a mais de altura sai mais barato que a armadura de compressão e o congestionamento de barras.
- Não checar a interação V + T. Cortante e torçor podem estar individualmente aprovados e a soma das razões de biela ultrapassar 1,0.
Responsabilidade técnica
Nenhuma ferramenta — inclusive a nossa — substitui o projetista. Os esforços de entrada vêm do modelo estrutural, e a escolha do sistema, das combinações, do nível de ductilidade e do detalhamento final é decisão de engenharia. Procure o engenheiro responsável sempre que houver reforço ou verificação de estrutura existente, alteração de carregamento, vigas de transição, torção de equilíbrio, concretos do Grupo II ou qualquer dúvida sobre a origem dos esforços. A conferência dos dados, a compatibilização com o restante da estrutura e a responsabilidade técnica pelo projeto (ART/RRT) permanecem integralmente com o engenheiro civil habilitado.
Perguntas frequentes
Qual a fórmula para calcular a armadura de flexão de uma viga?
A área de aço sai do equilíbrio de momentos da seção: As = Md / (fyd · z), em que Md = γf · Mk é o momento de cálculo, fyd = fyk/γs e z = d − 0,4x é o braço de alavanca. A posição da linha neutra x vem do parâmetro adimensional Kmd = Md/(bw·d²·fcd). O valor obtido deve ser comparado com a armadura mínima da NBR 6118 e adota-se o maior.
Como calcular a altura útil (d) de uma viga de concreto?
d = h − d′, com d′ = cobrimento nominal + diâmetro do estribo + metade do diâmetro da barra longitudinal. Por exemplo, com cobrimento 2,5 cm, estribo φ5,0 mm e barra φ16 mm, d′ ≈ 3,8 cm. Se a armadura exigir duas camadas, d′ cresce e o dimensionamento precisa ser refeito com o novo d.
O que é Kmd no dimensionamento de vigas?
É o momento fletor de cálculo adimensionalizado: Kmd = Md/(bw·d²·fcd). Como reúne esforço, geometria e resistência num único número, permite obter diretamente a posição relativa da linha neutra x/d e, dela, o braço de alavanca. Quanto maior o Kmd, mais solicitada está a seção e mais a linha neutra desce.
Qual o limite de x/d na NBR 6118?
Para garantir ruptura dúctil, a NBR 6118 limita x/d ≤ 0,45 em concretos até C50 e x/d ≤ 0,35 nos concretos do Grupo II (C55 a C90). Ultrapassado o limite, é preciso aumentar a seção, elevar o fck ou adotar armadura dupla — armadura de compressão que absorve o momento excedente mantendo a linha neutra dentro do limite.
Como calcular os estribos de uma viga de concreto armado?
Primeiro verifique o esmagamento das bielas (Vsd ≤ VRd2). Depois calcule a parcela do concreto Vc = 0,6·fctd·bw·d, obtenha Vsw = Vsd − Vc e a armadura Asw/s = Vsw/(0,9·d·fywd). Compare com a armadura mínima ρsw,mín = 0,2·fctm/fywk e respeite o espaçamento máximo (0,6d ≤ 30 cm, ou 0,3d ≤ 20 cm quando Vsd > 0,67·VRd2).
Por que a armadura mínima de estribos quase sempre governa?
Porque em vigas de porte usual a parcela resistida pelo concreto (Vc) já cobre boa parte do cortante, deixando um Vsw pequeno. A armadura mínima, por depender apenas de fctm, fywk e da largura da alma, costuma resultar maior que a calculada. Ela é obrigatória e não pode ser dispensada mesmo quando o cálculo pede menos.
Quando é obrigatório verificar a flecha de uma viga?
Sempre. A verificação de deformações é um estado-limite de serviço exigido pela NBR 6118, com limite de aceitabilidade visual de ℓ/250 para a flecha total (imediata mais diferida). Na prática, em vãos a partir de cerca de 5 m ela é o critério que define a altura da viga, mesmo quando a armadura de flexão passa com folga.
Qual a diferença entre esforço característico e esforço de cálculo?
O esforço característico (Mk, Vk, Tk) é o valor obtido da análise estrutural com as cargas nominais. O esforço de cálculo é o característico multiplicado pelo coeficiente de ponderação γf, usualmente 1,4 nas combinações normais do ELU. O dimensionamento de armaduras usa o valor de cálculo; as verificações de serviço (flecha e fissuração) usam os valores sem majoração, nas combinações quase-permanente e frequente.
Faça esse cálculo no CalcproX
Dimensionamento de vigas de concreto armado pela NBR 6118
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Sobre o autor
Eng. Mauro Moura
Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Engenheiro civil formado pela PUC-SP
- Pós-graduado em Edifícios Altos pelo Mackenzie
- Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Mais de 10 anos projetando estruturas e fundações
Conteúdo informativo. A interpretação dos resultados e a responsabilidade técnica do projeto são sempre do engenheiro responsável.
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