Fundações

Como dimensionar um tubulão a céu aberto

Por Eng. Mauro Moura

Dimensionar um tubulão a céu aberto é, na prática, resolver duas coisas em sequência: qual área de base o solo exige para receber a carga e qual fuste de concreto leva essa carga até lá com segurança. Este guia mostra o caminho completo — da tensão admissível pelo SPT até a armadura e a fretagem do cabeçote — com um exemplo numérico fechado passo a passo. Ao final, o que deve ficar claro não é só a conta, mas onde ela costuma falhar.

Dimensionamento de tubulão a céu aberto no CalcproX

O que é um tubulão a céu aberto e quando ele é a solução certa

O tubulão a céu aberto é uma fundação profunda escavada — manual ou mecanicamente — sem revestimento e sem ar comprimido, formada por um fuste cilíndrico que termina em uma base alargada. A carga do pilar desce pelo fuste e é transmitida ao terreno essencialmente pela ponta: no cálculo corrente despreza-se o atrito lateral, o que joga toda a responsabilidade sobre a tensão admissível do solo de apoio e sobre a geometria da base.

A condição que define a viabilidade é a água. A ABNT NBR 6122 admite o tubulão a céu aberto acima do nível d'água, ou quando é possível esgotar a escavação sem risco de desmoronamento e sem comprometer a segurança de quem trabalha dentro do fuste. Havendo lençol que não se consegue rebaixar, a solução passa a ser o tubulão pneumático ou outro tipo de estaca — não se force o método.

Dados que você precisa reunir antes de começar

  • Sondagem SPT (ABNT NBR 6484): NSPT por metro e classificação do solo, cobrindo pelo menos 3 m abaixo da cota prevista para a base, e a profundidade do nível d'água.
  • Cargas do pilar: normal característica de compressão (Nk), esforço horizontal (Hk), momento no topo (Mk) e, se houver, a tração (torres, pórticos, estruturas leves com vento).
  • Geometria do pilar que apoia no cabeçote — ela define a verificação de contato e a fretagem.
  • Materiais: fck (mínimo de 20 MPa pela NBR 6122), aço CA-50 e cobrimento compatível com a classe de agressividade.
  • Coeficientes: γf = 1,4 para as ações e, para o concreto do tubulão, o γc da NBR 6122:2019, que não é 1,4 — vale 1,6 sem encamisamento, 1,5 com camisa metálica e 1,4 com camisa de concreto.

As etapas do cálculo

1. Definir a tensão admissível do solo na cota de apoio

É a etapa que governa tudo. Os caminhos usuais são: a regra empírica σadm = NSPT/3 em kgf/cm², válida apenas até NSPT ≈ 20 (acima disso o critério satura e não deve ser extrapolado); a expressão (√N − 1) em kgf/cm²; a média do NSPT no bulbo de tensões abaixo da base; e a formulação analítica de Terzaghi com fatores de capacidade de Vesić, aplicando FS = 3,0 conforme a NBR 6122. Quando você roda mais de um método, adote o menor valor. Uma convenção prática importante: o NSPT de projeto é o menor entre as cotas L, L+1 e L+2 — a base "enxerga" o material mais fraco logo abaixo dela.

2. Pré-dimensionar a base pela área necessária

Abase ≥ Nk / σadm, e daí Db = √(4·Abase/π), arredondado para múltiplo de 5 cm. Atenção: esta é apenas a primeira iteração. Se houver momento, a tensão de borda será maior que a média e o diâmetro terá de crescer.

3. Dimensionar o fuste à compressão

O diâmetro mínimo pelo concreto sai de Df,mín = √(4·γf·Nk·γc / (0,85·π·fck)). Na prática esse valor quase nunca governa: a NR-18 exige fuste com no mínimo 70 cm para permitir o trabalho do operário dentro da escavação. Em seguida verifica-se Nsd ≤ NRd, com NRd limitado a 5 MPa·Ac.

4. Fechar a geometria da base

Com o ângulo do tronco de cone β (usualmente 60° com a horizontal), a altura do alargamento é H3 = tg β·(Db − Df)/2, somada ao rodapé cilíndrico H4 ≥ 20 cm. A altura total da base não deve ultrapassar cerca de 2,0 m; se ultrapassar, a saída é adotar falsa elipse (base alongada, com a razão entre eixos limitada a a/b ≤ 2,5) ou dividir a carga em dois tubulões.

5. Classificar a rigidez e escolher o modelo lateral

O parâmetro Z compara a rigidez do fuste com a do solo. Com Z < 4 o tubulão é curto (rígido) e gira em bloco: aplica-se um modelo de apoio elástico tipo Winkler, que fornece o ângulo de rotação θ, os deslocamentos e as tensões de borda na base. Com Z ≥ 4 ele é flexível e precisa ser tratado como viga sobre apoio elástico, com Kh crescendo com a profundidade.

6. Verificar as tensões de contato e os deslocamentos

Aqui entram σmáx ≤ σadm e, igualmente importante, σmín > 0 — tensão mínima negativa significa descolamento de parte da base. Verificam-se ainda o coeficiente de segurança ao tombamento lateral (CS ≥ 1,5), a rotação θ (referência prática ≤ 1°) e os recalques horizontal e vertical, usualmente limitados a L/300.

7. Havendo tração, verificar o arrancamento

A resistência vem do peso próprio do tubulão somado ao peso de um cone de solo invertido acima da base — pelo cone de solo (abertura igual a φ) ou pelo cone de Paladino, que usa um ângulo efetivo reduzido e é mais conservador. Exige-se CS ≥ 1,5. Se houver nível d'água dentro do cone, a parcela submersa entra com peso específico submerso — e o CS despenca.

8. Armadura, cabeçote e fretagem

A seção circular é dimensionada à flexo-compressão com o par (Nsd, Msd). Na maioria dos tubulões comprimidos o resultado é governado pela armadura mínima da NBR 6118, e não pelo cálculo de flexão. No cabeçote verifica-se a tensão de contato do pilar e o critério de dispensa de fretagem: se a tração transversal σt ≤ fct/2, o concreto absorve sozinho; caso contrário, calcula-se armadura em cintas no topo do fuste.

Exemplo demonstrativo

Os números abaixo são demonstrativos, criados para ilustrar o encadeamento das etapas — não representam um projeto real nem substituem sondagem e verificação próprias.

Dados: Nk = 1200 kN; Hk = 30 kN; Mk = 40 kN·m; pilar 30 × 50 cm; fck = 25 MPa; CA-50; cobrimento 5 cm; sem encamisamento (γc = 1,6); cota de apoio L = 8,00 m; sem nível d'água; NSPT em 8/9/10 m = 15/16/18; solo dominante argila arenosa rija (φ = 25°).

  1. σadm: NSPT de projeto = menor entre 15, 16 e 18 = 15 → 15/3 = 5,0 kgf/cm² = 500 kPa.
  2. Base (1ª tentativa): A ≥ 1200/500 = 2,40 m² → Db = 1,75 m.
  3. Fuste: Df,mín ≈ 0,40 m pelo concreto, mas adota-se Df = 0,80 m pela NR-18. Nsd = 1680 kN ≤ NRd = 2513 kN. Folga de 33%.
  4. Rigidez: Z ≈ 2,6 < 4 → tubulão rígido, modelo de Winkler aplicável.
  5. Tensões com Db = 1,75 m: σ média = 499 kPa, mas o momento acrescenta ≈ 35 kPa na borda → σmáx = 534 kPa > 500 kPa. Não passa.
  6. 2ª iteração — Db = 1,85 m (A = 2,69 m²): σ média = 446 kPa; σmáx = 482 kPa ≤ 500 kPa e σmín = 410 kPa > 0. Passa.
  7. Geometria: H3 = tg 60°·(1,85 − 0,80)/2 ≈ 0,90 m; H4 = 0,20 m → base com 1,10 m (< 2,0 m, dispensa falsa elipse); fuste cilíndrico H2 = 6,90 m.
  8. Serviço: θ = 0,04°; recalque horizontal 0,40 cm e vertical 0,78 cm, ambos abaixo de L/300 = 2,67 cm.
  9. Armadura: As,mín = 20,1 cm² governa sobre o cálculo de flexo-compressão → 8 ø 20 mm (25,1 cm²), com espaçamento livre de 24 cm, folgado frente ao mínimo normativo.
  10. Cabeçote: σt = 0,84 MPa ≤ fct/2 ≈ 1,15 MPa → fretagem dispensada. Contato: 11,2 MPa ≤ fcd = 15,6 MPa.
ResultadoValorLimite
σ máx na base482 kPa500 kPa
σ mín na base410 kPa> 0
Rigidez Z2,6< 4 (rígido)
N sd / N Rd (fuste)1680 kN2513 kN
Recalque vertical0,78 cm2,67 cm
Armadura adotada8 ø 20 mmA s,mín = 20,1 cm²
Volume de concreto5,31 m³

Repare no ponto central: a primeira base não passou. Dimensionar tubulão é iterativo, e é justamente essa ida e volta — mexer em Db, refazer tensões, revisar a altura da base — que a calculadora de tubulão do CalcproX executa de uma vez, mantendo todas as verificações sincronizadas.

Erros comuns

  • Dimensionar a base só pela tensão média. Com momento no topo, quem manda é a tensão de borda. Foi exatamente o que reprovou a primeira iteração do exemplo.
  • Usar γc = 1,4 no fuste. Sem encamisamento a NBR 6122:2019 pede 1,6. A diferença é de mais de 12% na resistência — a favor da insegurança.
  • Extrapolar σadm = NSPT/3 para solos muito resistentes. O critério é empírico e limitado a NSPT ≈ 20; acima disso é preciso outro método.
  • Ignorar σmín. Base parcialmente descolada invalida a hipótese de distribuição linear de tensões usada no cálculo.
  • Esquecer o nível d'água no cone de arrancamento. O peso submerso reduz quase pela metade a parcela de solo resistente.
  • Majorar o momento duas vezes. Modelos de tubulão flexível já entregam esforços de cálculo; aplicar γf de novo superdimensiona sem motivo.
  • Base alta demais. Passar de ~2,0 m de altura de base é sinal de que falta falsa elipse ou um segundo tubulão — não de que basta escavar mais.
  • Adotar tubulão a céu aberto abaixo do lençol sem estudo de esgotamento. É uma decisão de segurança do trabalho, não apenas de cálculo.

Quando procurar o engenheiro responsável

Nenhuma rotina de cálculo — nem a deste artigo, nem a de qualquer ferramenta, inclusive a do CalcproX — substitui o julgamento de um engenheiro habilitado. Procure obrigatoriamente uma avaliação individualizada quando: a sondagem apresentar camadas de comportamento errático ou matacões; houver nível d'água na faixa de escavação; existir tração relevante ou carga cíclica; o tubulão ficar próximo a divisa, talude ou fundação vizinha; ou quando o solo de apoio encontrado em obra divergir do previsto na sondagem — situação em que a cota de apoio precisa ser reavaliada antes da concretagem.

O dimensionamento de fundações é atividade de responsabilidade técnica registrada (ART/RRT). O engenheiro que assina responde pelos dados de entrada, pelas hipóteses adotadas e pela conferência dos resultados — a ferramenta é instrumento de cálculo, e a decisão de projeto continua sendo humana.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre tubulão a céu aberto e tubulão pneumático?

O tubulão a céu aberto é escavado sem revestimento e sem pressurização, e só é viável acima do nível d'água ou quando a escavação pode ser esgotada com segurança. O tubulão pneumático usa ar comprimido para expulsar a água da escavação, permitindo trabalhar abaixo do lençol — mas exige camisa, equipamento específico e cuidados rigorosos de segurança do trabalho. No cálculo, o tubulão pneumático ainda desconta o efeito da pressão de ar sobre a carga do fuste.

Qual o diâmetro mínimo do fuste de um tubulão?

Para tubulão a céu aberto com escavação manual, a NR-18 estabelece 70 cm como diâmetro mínimo do fuste, para permitir o trabalho do operário dentro da escavação. Diâmetros menores exigem justificativa técnica e método executivo compatível. Na prática, esse limite quase sempre governa: o diâmetro exigido pela resistência do concreto costuma ser bem menor que 70 cm em cargas usuais de edifícios.

Como calcular a tensão admissível do solo para tubulão pelo SPT?

Os caminhos usuais são a regra empírica σadm = NSPT/3 em kgf/cm² (válida até NSPT em torno de 20), a expressão (√N − 1) em kgf/cm², a média do NSPT no bulbo de tensões abaixo da base, e a formulação analítica de Terzaghi com fatores de Vesić aplicando FS = 3,0 conforme a NBR 6122. Rodando mais de um método, adote o menor valor. O NSPT de projeto costuma ser o menor entre as cotas L, L+1 e L+2.

Qual a altura máxima da base de um tubulão?

A prática consagrada limita a altura total da base (tronco de cone mais rodapé) a cerca de 2,0 m, com versões mais conservadoras adotando 1,80 m. Acima disso o volume de concreto e o risco da escavação crescem desproporcionalmente. Quando o cálculo pede uma base maior, as saídas são adotar falsa elipse ou dividir a carga em dois tubulões — nunca simplesmente aumentar a altura.

Tubulão precisa de armadura em todo o comprimento?

Depende do esforço. Em tubulão sob compressão centrada pura, a NBR 6122 permite armar apenas o trecho superior de ligação com o bloco ou pilar. Havendo momento, esforço horizontal ou tração, a armadura longitudinal deve acompanhar o comprimento solicitado e atender aos mínimos da NBR 6118. Na maioria dos casos comprimidos, é a armadura mínima que governa, e não o cálculo de flexo-compressão.

O que é falsa elipse em tubulão e quando usar?

A falsa elipse é uma base alongada, formada por dois semicírculos ligados por um trecho retangular. Ela é usada quando a base circular necessária ficaria alta demais ou invadiria divisa, fundação vizinha ou outro tubulão. Ganha-se área de apoio sem aumentar a altura do alargamento. A prática limita a razão entre o eixo maior e o menor a cerca de 2,5, para que a distribuição de tensões continue aceitável.

Como saber se o tubulão é rígido (curto) ou flexível (longo)?

Pelo parâmetro de rigidez Z, que compara a rigidez à flexão do fuste com a rigidez do solo ao longo do comprimento enterrado. Com Z menor que 4 o tubulão é considerado rígido e gira praticamente em bloco, permitindo modelos de apoio elástico tipo Winkler. Com Z igual ou maior que 4 ele é flexível e precisa ser tratado como viga sobre apoio elástico, com coeficiente de reação horizontal crescendo com a profundidade.

Tubulão a céu aberto pode ser executado abaixo do nível d'água?

Somente quando é possível esgotar a escavação sem risco de desmoronamento das paredes e sem comprometer a segurança de quem trabalha no fundo do fuste, conforme a NBR 6122. Se o lençol não pode ser rebaixado com segurança, o tubulão a céu aberto deixa de ser aplicável e a solução passa a ser o tubulão pneumático ou outro tipo de estaca. Essa é uma decisão de segurança do trabalho, não apenas de cálculo estrutural.

Faça esse cálculo no CalcproX

Dimensionamento de Tubulão a Céu Aberto (NBR 6122)

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Eng. Mauro Moura, Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia

Sobre o autor

Eng. Mauro Moura

Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia

  • Engenheiro civil formado pela PUC-SP
  • Pós-graduado em Edifícios Altos pelo Mackenzie
  • Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
  • Mais de 10 anos projetando estruturas e fundações

Conteúdo informativo. A interpretação dos resultados e a responsabilidade técnica do projeto são sempre do engenheiro responsável.