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Como calcular a capacidade de carga de estacas pelo SPT

Por Eng. Mauro Moura

Calcular a capacidade de carga de uma estaca pelo SPT é converter o índice N de cada metro de sondagem em duas parcelas de resistência — ponta e atrito lateral — somá-las e aplicar os fatores de segurança da ABNT NBR 6122. Este artigo mostra o procedimento completo com as fórmulas dos métodos semi-empíricos consagrados no Brasil e um exemplo numérico fechado, metro a metro, de uma estaca hélice contínua.

Cálculo da capacidade de carga de estacas pelo SPT no CalcproX

O que significa "capacidade de carga" de uma estaca

A capacidade de carga na ruptura (R) é a força máxima que o conjunto solo-estaca mobiliza antes de o sistema falhar. Ela se decompõe em duas parcelas fisicamente distintas: a resistência de ponta (Rp), mobilizada pela pressão na base do elemento, e a resistência por atrito lateral (Rl), acumulada ao longo do fuste na interface com o solo.

Vale sempre R = Rp + Rl. A carga admissível (Padm) sai da aplicação de fatores de segurança sobre essa soma, conforme a ABNT NBR 6122. Os métodos semi-empíricos brasileiros existem justamente porque medir Rp e Rl diretamente exigiria prova de carga em cada estaca: eles correlacionam o índice N do SPT com as tensões unitárias de ponta e de atrito, com coeficientes calibrados por tipo de solo e por processo executivo.

Repare que este é o cálculo geotécnico. A resistência estrutural do fuste — seção de concreto ou aço — é uma verificação separada e ambas precisam fechar.

Dados necessários antes de começar

  • Perfil de sondagem SPT executado conforme a ABNT NBR 6484, metro a metro: profundidade, índice N e classificação tátil-visual do solo. A programação dos furos segue a ABNT NBR 8036.
  • Posição do nível d'água e identificação de camadas de aterro ou solo mole superficial.
  • Geometria da estaca: diâmetro do fuste (ou área e perímetro reais, no caso de perfil metálico) e a profundidade que se pretende testar.
  • Processo executivo: hélice contínua, escavada, Franki, raiz, ômega, Strauss, pré-moldada cravada, metálica. É ele que define os coeficientes — a mesma sondagem dá resultados diferentes para estacas diferentes.
  • Carga do pilar que a estaca deve receber, para comparar com a admissível e decidir a cota de parada.

As etapas do cálculo

  1. Monte a geometria. Para seção circular: área de ponta Ap = π·D²/4 e perímetro U = π·D. Para estaca metálica, use a área e o perímetro do perfil laminado — não a seção circular equivalente.
  2. Escolha o método compatível com o tipo de estaca. Aoki-Velloso (1975) e Décourt-Quaresma (1978) cobrem praticamente todos os processos; Teixeira (1996) é uma terceira leitura útil; para estaca raiz e para hélice em rocha há formulações específicas.
  3. Calcule o atrito unitário de cada metro a partir do N e do tipo de solo daquela camada, e multiplique pela área lateral do trecho (U · ΔL). Some de cima para baixo — o atrito é acumulado.
  4. Despreze o que não deve contribuir. Aterro, solo mole superficial e trechos com atrito negativo saem do somatório. O Décourt-Quaresma, por convenção, já despreza os dois primeiros metros.
  5. Calcule a ponta na cota estudada com o N representativo daquela profundidade, aplicando o coeficiente do solo e o fator do tipo de estaca.
  6. Aplique os fatores de segurança. Sem prova de carga, a referência da NBR 6122 é fator global 2,0 sobre a resistência total. O Décourt-Quaresma trabalha com fatores parciais próprios (usualmente 1,3 no atrito e 4,0 na ponta) — e a admissível é o menor entre os dois critérios.
  7. Repita metro a metro para levantar a curva de capacidade × profundidade e achar a cota em que a admissível supera a carga do pilar.

É esse laço repetitivo que consome tempo no projeto. Na calculadora de capacidade de estacas do CalcproX ele roda em paralelo para cinco métodos sobre a mesma sondagem, entregando a tabela de cada profundidade e o gráfico comparativo.

Exemplo demonstrativo

Os números abaixo são demonstrativos, para ilustrar o encadeamento das contas — não constituem projeto. Estaca hélice contínua, D = 40 cm, ponta a 10 m. Logo Ap = π·0,40²/4 = 0,1257 m² e U = π·0,40 = 1,2566 m.

Prof. (m)N (SPT)Solo
1 a 33 / 4 / 5Argila siltosa
4 a 57 / 9Argila arenosa
6 a 711 / 13Areia argilosa
8 a 1116 / 18 / 20 / 24Areia siltosa

Aoki-Velloso, passo a passo

Atrito unitário: rl = K · α · N / F2. Ponta: rp = K · N / F1. Para hélice contínua, F1 = 2,0 e F2 = 4,0. Os coeficientes de solo usados: argila siltosa K = 220 kPa e α = 4,0%; argila arenosa K = 350 kPa e α = 2,4%; areia argilosa K = 600 kPa e α = 3,0%; areia siltosa K = 800 kPa e α = 2,0%.

No metro 8, por exemplo: rl = 800 · 0,020 · 16 / 4,0 = 64 kPa, e o trecho contribui 64 · 1,2566 · 1,0 = 80,4 kN. Somando os dez metros chega-se a Rl = 483 kN.

Na ponta, a 10 m, em areia siltosa com N = 20: rp = 800 · 20 / 2,0 = 8.000 kPa, logo Rp = 8.000 · 0,1257 = 1.005 kN. Total R = 1.488 kN e, com fator global 2,0, Padm = 744 kN (74,4 tf).

Décourt-Quaresma e Teixeira, para conferência

No Décourt-Quaresma o atrito usa rl = 10 · (NL/3 + 1), com NL igual à média dos N do fuste limitada ao intervalo de 3 a 15 — aqui NL = 9,7, resultando rl = 42,3 kPa. Descontados os dois primeiros metros, Rl = 42,3 · 1,2566 · 8 = 426 kN. A ponta usa Np como média dos N acima, na e abaixo da cota — (18 + 20 + 24)/3 = 20,7 — com C = 400 kPa para areia siltosa e α = 0,30 para hélice contínua: Rp = 0,30 · 400 · 20,7 · 0,1257 = 312 kN. Pelos fatores parciais, 426/1,3 + 312/4,0 = 405 kN; pelo global, 737/2,0 = 369 kN. Governa o menor: 369 kN.

No Teixeira, com N limitado ao intervalo de validade do método, rl = β · NL com β = 4 kPa e rp = α · Np com α = 240 kPa para areia siltosa e hélice: Rl = 538 kN, Rp = 573 kN e Padm = 555 kN.

MétodoRp (kN)Rl (kN)R (kN)Padm (kN)
Aoki-Velloso1.0054831.488744
Décourt-Quaresma312426737369
Teixeira5735381.111555

A dispersão é real e é o ponto mais importante do exemplo: as parcelas de atrito ficaram próximas (426 a 538 kN), mas a de ponta variou mais de três vezes, porque cada método pondera de forma diferente o efeito do processo executivo sobre a base. Adotar cegamente o maior valor é temerário; adotar o menor pode encarecer demais a fundação. A decisão é de projeto.

Erros comuns

  • Dividir tudo por 2 no Décourt-Quaresma. Quando se usam fatores parciais, o resultado precisa ser confrontado com o critério global e prevalece o menor.
  • Contar o atrito do aterro. Camada superficial mole ou aterro recente não só deixa de colaborar como pode gerar atrito negativo, subtraindo capacidade.
  • Ignorar os limites de validade. Cada método tem faixa de N em que foi calibrado; usar N bruto de 45 ou 50 golpes onde o método limita o valor infla o resultado.
  • Extrapolar a sondagem. Se o furo parou a 12 m, não há informação para uma ponta a 15 m.
  • Confundir geotecnia com estrutura. A NBR 6122 fixa, por tipo de estaca, o coeficiente de ponderação do concreto e a tensão limite de trabalho da seção; a menor entre a capacidade geotécnica e a estrutural é que comanda.
  • Repetir o valor de compressão para tração. Na tração a ponta não contribui (Rp = 0) e o atrito lateral mobilizado é menor.
  • Trocar unidades de coeficiente — K em kPa e MPa, α em porcentagem e em decimal — erro que muda o resultado por fator de mil.

O que a norma exige além da conta

A NBR 6122 admite expressamente a previsão da capacidade por métodos semi-empíricos, mas estabelece critérios para execução obrigatória de provas de carga estáticas em função do porte do estaqueamento e do nível de segurança adotado no projeto. O ensaio permite reduzir o conservadorismo do fator global — e, mais importante, verificar na obra real o que a correlação previu. Também é na obra que entram o controle executivo, a nega e o monitoramento de energia, sem os quais o cálculo é apenas uma estimativa.

Quando procurar o engenheiro responsável

Nenhuma correlação com o SPT substitui julgamento profissional. A escolha do método, dos coeficientes, dos fatores de segurança e da cota de assentamento, a avaliação da representatividade da sondagem, os efeitos de grupo no bloco e a decisão sobre provas de carga são atribuições do engenheiro responsável pelo projeto de fundações, com ART emitida. Ferramentas como as do CalcproX aceleram e documentam a rotina de cálculo e o memorial — a responsabilidade técnica pelo resultado continua sendo de quem assina.

Perguntas frequentes

Qual é a fórmula da capacidade de carga de estaca pelo SPT?

A forma geral é R = Rp + Rl, em que Rp = rp · Ap (tensão unitária de ponta vezes a área da base) e Rl = Σ (rl,i · U · ΔLi) (atrito unitário de cada camada vezes a área lateral do trecho). O que muda de um método para outro é como rp e rl são obtidos a partir do índice N: no Aoki-Velloso, rp = K·N/F1 e rl = K·α·N/F2; no Décourt-Quaresma, rp = α·C·Np e rl = β·10·(NL/3 + 1). A carga admissível sai da divisão de R pelos fatores de segurança.

Como se calcula o atrito lateral de uma estaca metro a metro?

Para cada metro de sondagem calcula-se a tensão de atrito unitária com o N e o tipo de solo daquela camada, multiplica-se pela área lateral do trecho (perímetro U vezes a espessura ΔL) e acumula-se de cima para baixo. Camadas de aterro ou solo mole superficial devem ser excluídas do somatório, e o Décourt-Quaresma despreza por convenção os dois primeiros metros.

O que são os fatores F1 e F2 do método Aoki-Velloso?

São fatores de correção que traduzem o efeito do processo executivo sobre a resistência: F1 corrige a parcela de ponta e F2 a de atrito lateral. Estacas de deslocamento, que comprimem o solo na cravação, recebem fatores menores (mais favoráveis) que estacas escavadas, que aliviam tensões. Para hélice contínua adotam-se usualmente F1 = 2,0 e F2 = 4,0; para escavada, 3,0 e 6,0; e para estacas cravadas de deslocamento é comum a adaptação F1 = 1 + D/80, com D em centímetros, e F2 = 2·F1.

Por que Aoki-Velloso e Décourt-Quaresma dão resultados diferentes para a mesma sondagem?

Porque foram calibrados com bancos de provas de carga distintos e ponderam de forma diferente o efeito do processo executivo — principalmente na parcela de ponta. Em estacas escavadas e hélice contínua o Décourt-Quaresma penaliza fortemente a ponta, enquanto o Aoki-Velloso costuma ser mais generoso. Diferenças de duas vezes na admissível são comuns, e é exatamente por isso que a prática de projeto é comparar métodos antes de fixar a cota de parada.

Qual fator de segurança usar quando não há prova de carga?

Para capacidade prevista por métodos semi-empíricos sem prova de carga, a referência da ABNT NBR 6122 é o fator de segurança global 2,0 aplicado à resistência total. O Décourt-Quaresma trabalha com fatores parciais próprios — usualmente 1,3 sobre o atrito lateral e 4,0 sobre a ponta — e a admissível deve ser o menor valor entre os dois critérios. A adoção final é decisão do engenheiro responsável.

Como calcular a capacidade de uma estaca à tração pelo SPT?

Na tração a parcela de ponta é desprezada (Rp = 0) e considera-se apenas o atrito lateral, reduzido por um coeficiente que representa a menor mobilização do atrito na inversão do sentido do deslocamento. Soma-se ainda, quando cabível, o peso próprio do elemento. O resultado é dividido pelo fator de segurança adotado para tração, que costuma ser mais rigoroso que o de compressão.

Até que profundidade posso usar a sondagem SPT no cálculo?

Só até o último metro efetivamente sondado — não se extrapola perfil. Se a ponta prevista fica abaixo da cota final do furo, ou se a sondagem parou por impenetrabilidade sem caracterizar a camada de apoio, é necessária investigação complementar. Métodos que usam média de camadas acima e abaixo da ponta exigem, além disso, que exista informação abaixo da cota de assentamento.

A capacidade calculada pelo SPT define sozinha a cota da estaca?

Não. O cálculo geotécnico precisa ser confrontado com a resistência estrutural da seção — a NBR 6122 fixa, por tipo de estaca, o coeficiente de ponderação do concreto e a tensão limite de trabalho — e governa o menor dos dois valores. Também entram na decisão o efeito de grupo no bloco, recalques admissíveis, atrito negativo e o controle executivo em obra, incluindo provas de carga quando a norma as exigir.

Faça esse cálculo no CalcproX

Dimensionamento de Estacas: capacidade de carga pelo SPT

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Eng. Mauro Moura, Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia

Sobre o autor

Eng. Mauro Moura

Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia

  • Engenheiro civil formado pela PUC-SP
  • Pós-graduado em Edifícios Altos pelo Mackenzie
  • Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
  • Mais de 10 anos projetando estruturas e fundações

Conteúdo informativo. A interpretação dos resultados e a responsabilidade técnica do projeto são sempre do engenheiro responsável.