Protendido
Como calcular a fretagem de cabos de protensão
Dimensionar a fretagem de cabos de protensão é calcular a armadura que costura as tensões de tração de fendilhamento na zona de ancoragem, onde a força concentrada da placa se espalha por toda a seção. O roteiro é sempre o mesmo: força total do grupo de cabos, prisma equivalente definido pelas placas, força de fendilhamento Ft = 0,25·P·(1 − hp/hv), área de aço com a tensão do aço limitada a 50% de fyk e ainda minorada por γs, e distribuição dos grampos nas posições entre placas. Este artigo percorre cada etapa segundo a ABNT NBR 6118:2023 e fecha com um exemplo numérico completo.

O que significa dimensionar a fretagem de cabos de protensão
Na extremidade de uma peça pós-tracionada, toda a força de um cabo entra no concreto por uma placa de ancoragem de poucos centímetros de lado e, em uma distância curta — da ordem da altura da seção —, precisa se abrir até ocupar a seção inteira. O desvio das trajetórias de compressão produz tração transversal: é o fendilhamento, que tende a abrir uma fissura longitudinal atrás da placa, alinhada com o eixo do cabo.
Fretagem é o nome consagrado da armadura transversal que costura essa região. Dimensioná-la é responder a três perguntas: qual a resultante de tração transversal, quanta área de aço a equilibra com a tensão limitada por controle de fissuração, e como essa área se distribui na seção e ao longo da zona de introdução.
Convém separar dois problemas. A zona local é o volume imediatamente sob a placa, onde a pressão de contato é altíssima e o risco é o esmagamento; ela é resolvida pelo próprio sistema de protensão — placa, bloco e espiral do fornecedor —, com segurança comprovada por ensaios de certificação. A zona geral é o trecho seguinte, em que a força se espalha e aparece o fendilhamento: é a região que o projetista calcula, e é dela que trata este artigo.
Normativamente, a extremidade ancorada é uma região D, em que a hipótese das seções planas não vale: a ABNT NBR 6118:2023, item 22.2, admite em geral que o limite entre as regiões B e D seja considerado a uma distância h — altura da seção transversal do elemento — da seção efetiva da descontinuidade. O item 21.2.3 determina que essas regiões sejam calculadas com modelos tridimensionais, dado que a superfície de apoio da ancoragem é pequena frente à seção transversal, e admite o método das bielas e tirantes (Seção 22), devendo a região ser analisada e projetada considerando o equilíbrio global, a tração transversal (fendilhamento anelar) devida às ancoragens individualmente e no seu conjunto e a compressão nessa zona (esmagamento).
Dados necessários antes de começar
- Geometria da seção na ancoragem: altura hv e largura bv na extremidade — que muitas vezes não é a seção corrente do vão.
- Geometria da placa: altura hp e largura bp, do catálogo do sistema de protensão adotado, e não estimadas.
- Arranjo dos cabos: cabos por linha, número de linhas e posição das placas na seção.
- Força por cabo Fc: a força máxima que aquela ancoragem transmite ao concreto — a força de estiramento Pi = σpi·Ap, com σpi limitado pela ABNT NBR 6118:2023, item 9.6.1.2.1 —, tomada antes da perda por cravação: na ancoragem ativa o atrito ainda não atuou, e a acomodação da cunha só reduz a força depois de a placa já ter recebido o valor máximo.
- Materiais: fyk da fretagem (CA-50 ou CA-60) e cobrimento compatível com a classe de agressividade ambiental.
- Coeficientes: γf = 1,4 (padrão conservador da rotina, editável — para o ELU no ato da protensão a NBR 6118:2023, item 17.2.4.3.1 b), admite γp = 1,1 na pós-tração e γf = 1,0 para as ações desfavoráveis), γs = 1,15, o fator de limitação da tensão do aço (0,5·fyk), o fator da força de fendilhamento (0,25), o fator de colocação (1,55) e a bitola mínima de escritório (usualmente φ10 mm).
As expressões independem de unidade, desde que consistentes. O exemplo está em kN, cm e MPa.
As etapas do cálculo
1. Força de protensão introduzida na extremidade
A solicitação da zona de ancoragem é a força total do grupo de cabos que atravessa aquela extremidade:
P = ncabos × nlinhas × Fc
O instante crítico é o ato da protensão, com o concreto ainda jovem e a força no valor máximo — antes, inclusive, da acomodação da cunha. Usar a força final, após fluência, retração e relaxação, subestima o fendilhamento na idade em que a peça é mais vulnerável.
2. Prisma equivalente e relação hp/hv
O modelo compara a dimensão da área carregada com a da seção que a recebe. Placas justapostas formam um bloco único, e a altura do prisma equivalente é a extensão vertical desse bloco:
hp,eq = nlinhas × hp
A relação hp,eq/hv governa tudo o que vem depois: quanto menor a placa em relação à seção, mais as bielas se abrem e maior é a tração transversal.
3. Força de fendilhamento
Do equilíbrio do prisma de regularização resulta a resultante de tração transversal:
Ft = 0,25 · P · (1 − hp,eq/hv)
Nos limites: placa ocupando toda a altura da seção não gera espalhamento; placa pontual leva Ft a 25% da força de protensão.
4. Tensão de cálculo da armadura, com limitação
A fretagem não é dimensionada com a tensão de escoamento cheia. Como o critério na zona de ancoragem é controle de fissuração — não se admite fissura visível atrás da placa —, a tensão característica é limitada à metade de fyk e o valor ainda é minorado por γs:
fyd = 0,5 · fyk / γs
Para CA-50: 500 × 0,5 / 1,15 = 217,4 MPa, contra os 434,8 MPa de um dimensionamento comum à flexão — armadura deliberadamente pouco solicitada, para trabalhar com deformação pequena.
5. Área de aço necessária
As = 1,55 · Ft · γf / fyd
O coeficiente 1,55 é o fator de colocação: cobre o fato de a armadura real não coincidir exatamente com a posição da resultante e de o fendilhamento se distribuir ao longo da zona de regularização, e não em um único plano. É valor padrão da rotina, editável.
6. Distribuição na seção e escolha da bitola
Com as placas justapostas, as posições disponíveis para a armadura são as juntas entre placas mais as duas bordas do bloco:
nesp = ncabos + 1
A área por posição é As/nesp. Adota-se um grampo por posição, e uma bitola só "atende" quando a área de uma barra vezes o número de posições cobre a área necessária. Se exigir mais posições do que existem, a saída é subir a bitola, aumentar a seção da extremidade ou rever o arranjo dos cabos.
7. Comprimento e posição das barras
Os grampos são executados em "C", com abas que penetram na peça ao longo da zona de introdução. O comprimento dessas abas é o maior valor entre a altura da seção e 40 vezes o diâmetro da barra — max(hv; 40φ) —, cobrindo os dois critérios que importam: a extensão da região D (da ordem de h) e a ancoragem da própria barra. A distribuição ao longo do eixo, dentro dessa extensão, é decisão do projetista, e não deve concentrar tudo rente à face.
8. Verificações geométricas
- Cabimento das placas: ncabos·bp ≤ bv e nlinhas·hp ≤ hv. Se não cabe na seção bruta, a geometria é impossível — antes de qualquer armadura.
- Cobrimento: comparar o bloco de placas com a seção útil (descontados 2× o cobrimento). Placa que cabe na seção bruta mas invade o cobrimento é alerta construtivo, não impedimento.
- Bitola mínima: critério de rigidez de montagem, tipicamente φ10 mm.
9. Pressão de contato em área reduzida: por que a fórmula de 21.2.1 não se aplica aqui
A ABNT NBR 6118:2023, item 21.2.1, trata da pressão de contato em área reduzida: com a carga atuando em área menor que a superfície do elemento, a resistência do concreto pode ser considerada aumentada pelo confinamento do entorno, por FRd = Ac0 · fcd · √(Ac1/Ac0), limitada a 3,3 · fcd · Ac0 — Ac0 é a área reduzida carregada uniformemente, Ac1 a área máxima de mesma forma e mesmo centro de gravidade que Ac0 inscrita na área total Ac2, e a relação entre os lados de Ac0 retangular não pode passar de 2. Os valores devem ser reduzidos se a carga não for uniformemente distribuída ou se existirem tensões de cisalhamento.
Há um ponto que muito projetista desconhece: a Norma diz que essa expressão não se aplica a ancoragens de protensão, cuja segurança deve ser garantida por ensaios de certificação do sistema. Pressão sob a placa, distâncias mínimas às faces, espaçamento entre ancoragens e espiral local são dados do fornecedor — respeitá-los é obrigação de projeto, não conta a refazer. Isso não transfere a compressão para fora do projeto: o item 21.2.3 c) exige que os efeitos da compressão na zona (esmagamento) sejam analisados junto com o equilíbrio global e o fendilhamento, e o item 17.2.4.3.1 impõe especificar claramente a resistência fckj na idade da protensão e verificar o limite de tensão de compressão no ato. O que a Norma dispensa é a expressão de 21.2.1 aplicada à ancoragem, não a verificação.
Exemplo numérico
Os números abaixo são demonstrativos — ilustram o encadeamento das etapas e não substituem o cálculo do seu caso.
Extremidade de viga pós-tracionada com 4 cabos em uma linha, Fc = 140 kN por cabo (força máxima na saída do macaco, antes da cravação). Seção na ancoragem bv = 50 cm e hv = 60 cm. Placas de 10 × 10 cm justapostas e centradas. Fretagem em CA-50, cobrimento 2,5 cm, γf = 1,4 e γs = 1,15.
| Etapa | Valor | Verificação |
|---|---|---|
| Força total P = 4 × 1 × 140 | 560 kN | no ato da protensão |
| Prisma hp,eq = 1 × 10; razão 10/60 | 10,0 cm; 0,167 | 1 − 0,167 = 0,833 |
| Ft = 0,25 × 560 × 0,833 | 116,7 kN | força de fendilhamento |
| fyd = 500 × 0,5 / 1,15 | 217,4 MPa | 0,5·fyk, ainda minorado por γs |
| As = 1,55 × 116,7 × 1,4 / 21,74 | 11,65 cm² | 21,74 kN/cm² = 217,4 MPa |
| Posições nesp = 4 + 1; área por posição | 5 → 2,33 cm² | 3 juntas + 2 bordas do bloco |
| Tentativa com φ16 (2,011 cm²) | 6 posições | 6 > 5 — não atende |
| Bitola adotada φ20 (3,142 cm²) | 4 posições | 4 posições exigidas ≤ 5 disponíveis — atende; adota-se 1 grampo em cada uma das 5 posições |
| As adotada = 5 × 3,142 | 15,71 cm² | ≥ 11,65 cm² — folga de 35% |
| Aba do grampo = max(60; 40 × 2,0) | 80 cm | governa 40φ, não hv |
| Grampo "C": 2 × 80 + (60 − 2 × 2,5) | 215 cm por barra | 5 grampos φ20; φ20 ≥ φ10 mínimo |
| Cabimento horizontal: 4 × 10 = 40 cm | folga 10,0 cm | ≤ bv; sobram 5,0 cm dentro da seção útil (45 cm) — não invade o cobrimento |
Repare no ponto de virada: φ16 seria a escolha natural de quem olha só a área total (11,65 cm² parecem caber em 6 barras), mas a armadura precisa ocupar as 5 posições que a geometria oferece — e a bitola sobe para φ20. Foi esse encadeamento entre esforço, geometria e detalhamento que orientou a calculadora de fretagem de cabos do CalcproX, que refaz as etapas a cada mudança de dado e emite o memorial com a substituição numérica.
Erros comuns
- Entrar com a força errada. A zona é solicitada no ato da protensão, com o concreto ainda ganhando resistência e a força no máximo. Usar P depois de todas as perdas — ou já descontada a cravação, que na ancoragem ativa só age depois de a placa transmitir o valor máximo — subestima Ft e As.
- Confundir a espiral do fornecedor com a fretagem de projeto. A espiral resolve a zona local, sob a placa; a fretagem resolve a zona geral, onde a força se espalha. Uma não dispensa a outra.
- Achar que a compressão saiu do projeto. A fórmula de 21.2.1 não se aplica à ancoragem, mas o esmagamento na zona segue sendo verificação de projeto (21.2.3), e o fckj da liberação precisa estar especificado (17.2.4.3.1).
- Usar a seção do meio do vão. hv e bv são os da extremidade. Alargamentos e mísulas mudam a relação hp/hv — e Ft depende diretamente dela.
- Adotar fyd cheio. Dimensionar a fretagem com 434,8 MPa em vez de 217,4 MPa corta a armadura pela metade e entrega a ancoragem fissurada logo na protensão.
- Tratar cada cabo isoladamente e parar por aí. A NBR 6118:2023, item 21.2.3, pede a verificação das ancoragens individualmente e no seu conjunto; o grupo justaposto define um prisma único.
- Concentrar todos os grampos junto à face. A tração transversal se desenvolve ao longo da zona de regularização, com pico afastado da extremidade. A armadura precisa acompanhar essa extensão, da ordem da altura da seção.
Responsabilidade técnica
Nenhuma ferramenta — inclusive a nossa — substitui o projetista. Força por cabo, geometria das placas, distâncias mínimas às faces e espaçamento entre ancoragens são dados do sistema de protensão adotado e precisam ser conferidos no documento do fornecedor. A análise da região como um todo, a compatibilização com a armadura passiva da extremidade, a verificação da compressão no ato da protensão e a distribuição das barras ao longo da zona de introdução são decisões de engenharia. Procure o engenheiro responsável sempre que houver arranjos irregulares de cabos, ancoragens próximas das faces, blocos de ancoragem ou protensão em peças existentes. A responsabilidade técnica pelo projeto (ART/RRT) permanece integralmente com o engenheiro civil habilitado.
Perguntas frequentes
Qual a fórmula da força de fendilhamento na ancoragem de protensão?
Ft = 0,25 · P · (1 − hp/hv), em que P é a força total do grupo de cabos que atravessa aquela extremidade — tomada no ato da protensão, com o valor máximo transmitido pelas placas —, hp a altura do prisma equivalente definido pelo bloco de placas de ancoragem e hv a altura da seção. Quanto menor a placa em relação à seção, maior a tração transversal: no limite de uma placa pontual, Ft tende a 25% da força de protensão; com a placa ocupando toda a altura, tende a zero.
Como calcular a área da armadura de fretagem?
As = 1,55 · Ft · γf / fyd, com γf = 1,4 e a tensão do aço limitada por fyd = 0,5 · fyk / γs — para CA-50, 500 × 0,5 / 1,15 = 217,4 MPa. Exemplo: para Ft = 116,7 kN, As = 1,55 × 116,7 × 1,4 / 21,74 kN/cm² = 11,65 cm², que depois se distribui entre as posições de armadura disponíveis entre as placas.
Por que a tensão do aço da fretagem é limitada a 50% de fyk?
Porque o critério de projeto na zona de ancoragem é controle de fissuração, não esgotamento da resistência: não se admite fissura longitudinal visível atrás da placa. Limitar a tensão faz a armadura trabalhar com deformação pequena e manter a fissura fechada. Note que o limite de 0,5·fyk ainda é minorado por γs: no CA-50 resulta 217,4 MPa, e não 250 MPa. Dimensionar com fyd cheio (434,8 MPa) reduziria a armadura pela metade.
Qual o comprimento da zona de ancoragem de um cabo protendido?
A extremidade ancorada é uma região de descontinuidade (região D). A ABNT NBR 6118:2023, item 22.2, admite em geral que o limite entre as regiões B e D seja considerado a uma distância h — a altura da seção transversal do elemento — da seção efetiva da descontinuidade. É nessa extensão que a fretagem deve ser distribuída; no detalhamento usual, as abas dos grampos têm comprimento max(hv; 40φ).
Quantos estribos de fretagem colocar na seção?
No modelo de placas justapostas, as posições de armadura são as juntas entre placas mais as duas bordas do bloco, ou seja, número de cabos + 1. Com 4 cabos em uma linha há 5 posições, uma barra em cada. A bitola escolhida precisa ser tal que a área de uma barra multiplicada pelo número de posições cubra a área de aço necessária.
Qual a bitola mínima da armadura de fretagem?
Não há bitola normativa específica; φ10 mm é o valor usual adotado como critério de rigidez de montagem, e é editável na rotina. Na prática quem governa é a geometria: se a área necessária não couber nas (número de cabos + 1) posições, é preciso subir a bitola. No exemplo do artigo, φ16 exigiria 6 posições para 5 disponíveis, e a escolha passa a φ20.
O que é pressão de contato em área reduzida na NBR 6118?
É a situação de carga aplicada em área menor que a superfície do elemento, tratada no item 21.2.1: FRd = Ac0 · fcd · √(Ac1/Ac0), limitada a 3,3 · fcd · Ac0, com Ac0 a área reduzida carregada uniformemente, Ac1 a área máxima de mesma forma e mesmo centro de gravidade que Ac0 inscrita na área Ac2, Ac2 a área total situada no mesmo plano de Ac0, e relação entre os lados de Ac0 retangular não maior que 2. Os valores devem ser reduzidos se a carga não for uniformemente distribuída ou se existirem tensões de cisalhamento, e a Norma registra expressamente que a expressão não se aplica a ancoragens de protensão.
A espiral que vem com a ancoragem dispensa a armadura de fretagem?
Não. A espiral fornecida com o sistema resolve a zona local — o volume imediatamente sob a placa, onde o risco é o esmagamento — e tem sua segurança comprovada por ensaios de certificação do sistema. A fretagem resolve a zona geral, onde a força se espalha pela seção e surge o fendilhamento, e é cálculo de projeto exigido pela ABNT NBR 6118:2023, item 21.2.3, que também mantém no projeto a verificação dos efeitos de compressão (esmagamento) nessa zona.
Faça esse cálculo no CalcproX
Fretagem de Cabos: Armadura de Fendilhamento na Zona de Ancoragem (NBR 6118)
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Sobre o autor
Eng. Mauro Moura
Engenheiro civil · Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Engenheiro civil formado pela PUC-SP
- Pós-graduado em Edifícios Altos pelo Mackenzie
- Sócio-proprietário da Ossamu Engenharia
- Mais de 10 anos projetando estruturas e fundações
Conteúdo informativo. A interpretação dos resultados e a responsabilidade técnica do projeto são sempre do engenheiro responsável.
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